I Concurso Petrobras CasaBloco de Artes Carnavalescas 2025
O calor de janeiro tingia Olinda de um dourado vibrante. A praça no coração da comunidade ganhava vida nos domingos à tarde, quando a orquestra de frevo começava seus ensaios. Os metais brilhavam ao sol, e o som contagiante atraía crianças, vizinhos curiosos e alguns dançarinos que arriscavam passos animados. Filipe, um servente de obras com mãos calejadas e alma sensível, ajustava o trombone com destreza. Para ele, o frevo era mais do que música —era fuga, identidade e paixão.
Filipe vivia entre dois mundos: o do trabalho duro no canteiro de obras, onde a masculinidade imperava, e o dos ensaios, onde ele podia, por alguns momentos, sentir-se parte de algo maior. Aos olhos de seus colegas de trabalho, ele era só mais um entre muitos. Mas no coração, Filipe carregava o peso de um segredo que moldava seus passos e silêncios.
Num desses ensaios, um grupo de jovens se aproximou da orquestra. À frente deles estava Mikael, Mika, um professor de frevo cujos movimentos pareciam desafiar a gravidade. Seus olhos brilhavam tanto quanto seu sorriso, e sua voz tinha a firmeza de quem conhecia bem o palco e a luta. Mika tinha uma proposta para o grupo de músicos: unir músicos e dançarinos para apresentações conjuntas durante o carnaval, uma parceria incentivada por um projeto da prefeitura. A orquestra concordou, e os ensaios se tornaram ainda mais vibrantes.
A primeira apresentação conjunta foi uma explosão de cor e energia. Mika dançava com a leveza de quem voa, e Filipe, escondido atrás do trombone, não conseguia desviar os olhos. Era impossível ignorar o magnetismo daquele jovem. No final do ensaio, Mika se aproximou com naturalidade, convidando Filipe para uma cerveja. Filipe hesitou, mas aceitou. No bar, as conversas fluíram com uma naturalidade que surpreendeu os dois. Falavam de música, dança, e, aos poucos, de sonhos e medos.
Naquela noite, Filipe voltou para casa com o coração leve, mas a mente inquieta. Era a primeira vez que ele sentia algo tão genuíno por alguém desde a adolescência, quando aprendera a esconder quem era. Na juventude, ele fora alvo de zombarias, chamado de “afeminado” e ridicularizado por gestos e trejeitos. O medo de ser ferido o levou a criar uma máscara que usava há anos.
Os encontros entre Filipe e Mika se tornaram frequentes. Eles dividiam segredos, risadas e silêncios. Mika enfrentava o preconceito de frente, sabia impor respeito e proteger sua dignidade. Filipe, por outro lado, vivia num constante jogo de esconde-esconde. Mika compreendia, mas aquilo o machucava. Ainda assim, respeitava o tempo do namorado.
Nos ensaios, os dois mantinham as aparências. Cumprimentavam-se discretamente e saíam em momentos diferentes. Fora dali, compartilhavam momentos intensos, mas Filipe evitava lugares públicos. O medo do julgamento era um fantasma constante. Apesar disso, o amor entre eles crescia, e, aos poucos, Mika apresentava Filipe a seus amigos mais próximos.
Mas o destino, testou Filipe. Numa manhã, ao sair abraçado com Mika de um shopping, os dois esbarraram em Julião, um amigo de longa data de Filipe. O sangue gelou. Filipe afastou-se rapidamente, enquanto Julião os cumprimentava e seguia seu caminho. O silêncio entre Filipe e Mika foi pesado no trajeto de volta para casa.
—Ele vai contar para todo mundo— murmurou Filipe, apertando a mão de Mika.
—E se contar?— Mika respondeu, com serenidade. —O que você tem medo de perder?
A pergunta ecoou nos dias seguintes. Filipe evitava os olhares na rua, prestando atenção a cada sussurro. Quando finalmente encontrou Julião, foi recebido com um sorriso caloroso e despretensioso. Julião o cumprimentou normalmente e falou das peripécias de seu filho. Depois quando Julião ia se despedindo e seguindo o seu caminho. Filipe o parou tentando falar sobre o acontecido, mas na mesma hora Julião o interrompeu.
—Compadre, você não tem que me explicar nada. A vida é sua, e você não deve nada a ninguém, eu não tenho nada o que me meter. E você não se apoquente, você sabe que não sou homem de “disse-me-disse”. Certo? Eu vou indo que já estou atrasado para ajudar no mercado. Até mais. Depois vá lá em casa qualquer dia que Rose faz um cafezinho para nós.
As palavras do amigo trouxeram um alívio que Filipe precisava. Aos poucos, ele começou a se abrir para o mundo ao seu redor. O medo deu lugar à liberdade, e o casal passou a planejar um futuro juntos. Mika sonhava em viajar, e Filipe começou a sonhar junto.
Certo dia Mika recebeu a notícia de que havia sido selecionado para um teste no Ballet da Ópera de Paris, os dois comemoraram como nunca. Um mês se passou e finalmente chegou o dia da viagem. No aeroporto estavam os amigos e a família dele, bem como Filipe para se despedir. Quando os dois se despediam, Mika perguntou para Filipe se ele lembrava que dia era aquele. Ele não entendeu, então Mika lembrou a ele que há exatamente um ano eles tinham se conhecido na praça no ensaio para o carnaval. Ao recordar daquele dia, ele comentou como o tempo passou rápido. Depois Mika mexeu na sua bolsa e tirou uma caixinha e disse: -Eu queria dar isso aqui para você quando eu voltasse, mas você sabe que eu não me seguro.
Mika entregou a Filipe uma caixinha com dois anéis e, entre risos e lágrimas, prometeu:
—Eu volto no próximo carnaval e a gente vai continuar a dançar juntos.
O som do alto-falante anunciou o embarque, mas as batidas do coração de Filipe acompanharam Mika até ele desaparecer entre os portões de embarque. Agora, Filipe sabia: o amor, como o frevo, não pede licença. Ele acontece —colorido, vibrante e livre.
SILDELANE MARQUES é jornalista e artista visual, apaixonada por contar histórias, especialmente no formato de contos. Sua trajetória une literatura e artes visuais, explorando narrativas que valorizam a cultura e a imaginação. Foi uma das premiadas no Concurso de Literatura Afrofuturista Conceição Evaristo 2023, promovido pela Fundação Palmares, com a obra Inã, a Estrela e o Baobá. Atualmente, possui um e-book publicado.
A fotografia que acompanha o conto é de JENER NEVES, fotógrafo de rua e artista visual. Nascido em Pernambuco, passeou pelas ladeiras de Salvador e hoje reside no Rio. Na infância já ensaiava contato com as artes e com o processo criativo, através da poesia e da criação dos seus próprios brinquedos. Radicado no Rio de Janeiro, desde de 1985, se apaixonou pela Cinemateca do MAM onde estagiou e assistiu a quase todos os clássicos do cinema. Formado em Comunicação. Trabalhou com publicidade, design e direção de arte. Sua fotografia nasce das ruas. É para ela que aponta seu olhar. E, até aqui, ela tem olhado de volta oferecendo um mundo de possibilidades.